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Até Tânia conseguir o emprego atual foram muitas portadas na cara. Afinal o seu ofício é muito rigoroso no sentido da biossegurança. Como é de família humilde, os pais de Tânia não conseguiram aceitar conviver com uma portadora de HIV em casa. Estavam desconfiados da filha, e por mais que fosse enfermeira, qualquer informação que ela passasse sobre a forma de transmissão era invalidada por eles. Eles pensavam que ela estava sendo leviana para ter um teto para morar.
Tânia então alugou um apartamento sem nenhum móvel com as economias que reservou de estágios que ela realizou quando não era portadora do vírus. O dia mais angustiante de Tânia foi quando com o braço cheio de currículos e cansada do dia em que já tinha feito 4 entrevistas caiu uma chuva em cima do maço de currículos em seu braço. Tânia ao mesmo tempo caiu de joelhos no chão e ficou plantos. Foi nesse dia que o borracheiro, Salomão, a ofereceu ajuda.
Naquele dia Tânia não tinha mais nenhum centavo no bolso, apenas os comprimidos para tratar o vírus. E também não tinha o que comer. Salomão, emprestou lhe um casaco, levou-a para uma lanchonete mais próxima. E então ali mesmo aos plantos sem se importar com quem pudesse ouvir sobre sua condição, falou tudo, e com mãos tremulas não pelo vírus, mas pela fome, pediu comida.
Salomão deu então uma risada de que isso não seria nada. E uma pizza quente chegou a mesa com litro de refrigerante. Sem conseguir esconder a sua condição de soro positivo, também não conseguiu esconder a fome. Enquanto Salomão comia os pedaços devagar, ela comia como um animal.
Saindo da lanchonete, Tânia agredeceu ao novo amigo pela ajuda e a gratidão excedeu toda àquela humilhação. Chegando em casa por volta das 23:00, jogou a bolsa no chão, tirou os sapatos e deitou sobre o único objeto de seu apartamento, um colchão velho; sem ao menos tomar banho, porquê os olhos já não conseguiam se abrir e as pernas estavam trêmulas, não pela fome, nem pelo HIV, mas de cansaço.
No outro dia, acordou com um sentimento de ressaca, sem ter bebido, não tinha dinheiro para distribuir currículos. Quando mexendo na roupa em que vestia, uma flare e uma blusa rosa claro, encontrou um cartão pregado em R$ 200, 00, escrito, do borracheiro.
Com esse dinheiro Tânia comprou, produtos de limpeza e higiêne pessoal, comida para uma semana e investiu R$ 30,00 em condução para outras entrevistas.
Ela estava com uma entrevista agendada para enfermeira com atribuições burocráticas. Tânia é irmã de Angêla que é 10 anos mais velha que ela. Já faz tempo que a irmã não morava com ela e os pais, pois tinha se casado com Délio.
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